Um paradoxo social

Sempre fui daquelas que repudiam gente que quer se revoltar contra tudo. O trânsito para, a pessoa é capaz de descer do carro e impedir ainda mais o tráfego só pra ter a oportunidade de xingar o governo. Tem muito carro na rua. Muito semáforo. Do asfalto, nem se fala: só buraco.

herald square traffic

O carro de trás foi mais discreto: não desceu do carro e nem pintou o rosto, só buzinou na medida para conseguir ultrapassar aquelas pessoas que, sabe-se lá como, ficam paradas no vermelho esperando o semáforo abrir pra poderem seguir. Porque o importante é chegar em casa, e ninguém tem tempo pra pensar em ninguém – além de si mesmo.

Normal. Depois vai no médico com queixa de estresse.

Esse tipo de gente é aquele que fuma tudo o que aparece na frente e depois faz passeata contra a poluição. Chora pela situação da Amazônia porque ouviu falar que é o Pulmão do Mundo. E a fumaça continua subindo. E a bituca vai pro chão.

E então joga a merda no ventilador de uma vez e critica a falta de gente honesta no governo, a ponto de colocar esse assunto em conversa de família. O papo fica sério, cheio de argumento. Teoricamente. Porque antes aproveita pra contar sobre as mil traições amorosas que cometeu na vida e as duzentas noites que voltou pra casa embriagado fugindo de blitz. E na verdade, a conversa só começa quando a pessoa descobre que aquele é o primo que tem um cargo ótimo numa empresa excelente e resolve ‘estreitar os laços familiares’. Coisa corriqueira. Se ele for gente boa, a pessoa ainda sai de lá com um emprego. E não tem problema nenhum, afinal, só é nepotismo quando é público.

E vai lá mudar o mundo.